Cá estou eu para contar-te mais uma dessas histórias sem começo nem fim que surge do nada da minha cabeça. Sim. Mais uma história daquelas que você se pergunta se o que eu quis transparecer foi algo mesmo de mim, meus sentimentos, ou se é, realmente, algo que não poderia existir, em outras palavras, de forma alguma.
Não se preocupe. A história da Samantha. Esse é o nome dela. Não tem muito a ver comigo. Não posso dizer que não tem nada a ver comigo, pois se baseia em alguma ramificação bem remota da minha vida, mas não deixa de ser algo insignificante de um fato real.
A história começa num fim de um relacionamento mal resolvido. Na real, começa muito depois do fim desse relacionamento. E eu não diria que foi mal resolvido. Depois que o amor acaba e surge a não confiança e o descaso, não tem o porque dizer que exista ainda algo para se resolver em um relacionamento, não é verdade?
Nossa querida Samantha se prendeu nesse relacionamento, que não existe mais, até então. Transformou o romance em amizade, para que pudesse dizer aos outros que os sentimentos eram tão verdadeiros, que apesar de não existir mais o fogo da paixão, a ternura continuou em ambos de tal forma que não poderiam viver um sem o outro. Que grande bobagem, não é mesmo? Ela sabia da bobagem que sempre dizia. Mesmo assim guardava em si seus comentários, enganando ele e a si mesmo, de que não existia mais nada ali.
O segredo do amor não esquecido ficou em si por muitos e muitos anos, sempre sendo alimentado por horas de conversas sobre assuntos diversos. Até que ele a “traiu”. Sim, porque diferente dela, ele não é nada idiota. E muito mais novo, tinha mais do que o tempo de vida dela a sua frente para poder se apaixonar por alguém que não o abandonasse e o traísse, da mesma maneira que ela havia feito com ele.
Traída. Traída pelo seu grande amor. Apaixonada e, agora mais do que nunca, não correspondida. Caramba, que triste! Você poderia até pensar que ela merecia todo esse sofrimento, primeiro, por ser uma retardada e se prender a esse “amor”; e segundo, por ter sido tão sacana com o cara enquanto ele gostava demais dela. Mas não. Ninguém é merecedor de sofrimento. Numa forma desesperadora de tentar chamar as atenções dele para ela, em pleno meio dia, sem mais nem menos, ela conta tudo para ele. Fala de repaixão, de que os sentimentos quando lhe escapam o peito são absurdamente estrondosos, mas que daquela vez o sentimento era maduro.
Coitado do cara.
Pobre Samantha.
Sem esperanças de que seu coração pudesse bater em harmonia com o do seu amor, ela continuou se arrastando pela vida. Se lamentando a cada conversa de que a outra estava no seu lugar de direito. Como o ciúmes estava a flor da pele, ela sugeriu, para que não se machucasse sempre, para que a outra e a história de vida dela com ele, nunca fossem comentados em suas conversas diárias. Era só um namoro, ela pensava, com o tempo passa e pode acabar, não será algo doentio como eu sinto. Se afundou nesse pensamento, até que (adoro esses ‘até que’, deixa a história cada vez mais miserável para nossa Samantha) o namoro virou um morar junto.
O não dito da evolução do relacionamento machucou mais do que o possível dito. E num ataque infanto juvenil ela o excluiu, literalmente, de sua vida. E ficou as escondidas durante poucos meses. Mas hipocritamente ela seguiu os passos do cara durante esse período. E não somente o dele. O da outra também.
Sinceramente, é o que eu menos entendo. Poxa, já não bastasse ser uma infeliz, quando se da conta de que engolir espinho dói, vai lá e devora um peixe inteiro? Se a convivência com a ideia de que não era, e nunca mais poderia ser, correspondida era insuportável, ao cortar os laços por que ela insistiu em correr atrás de noticias de ambos? Doida, não concordam comigo?
Para finalizar, Samantha voltou atras no seu chilique infanto juvenil e entre palavras não ditas, pediu perdão. Anunciou estar louca das ideias por causa de problemas do dia-a-dia, e que não, ela não estava apaixonada coisa nenhuma! E numa mentira, muito mal contada, todos os arabescos de seu segredo do amor não esquecido foram redesenhados. E cá está ela, novamente, vivendo uma vida sem amor, e agora, traída.